
Foto 1 - Atrizes: Tony Silva e Lenilda Santos
Duas mulheres, duas histórias. Um encontro atravessado por memórias, silenciamentos e resistência. É a partir dessas presenças femininas em cena que o espetáculo Aparecida convida o público a refletir sobre as marcas da exclusão social, do racismo e da invisibilidade que atingem, de maneira especialmente cruel, corpos negros e periféricos.
Com uma dramaturgia que transita entre a força da palavra, a memória e as experiências cotidianas, Aparecida apresenta personagens que carregam histórias muitas vezes ignoradas, mas que insistem em existir, falar e ocupar espaços. A encenação propõe um olhar atento e crítico para as estruturas que marginalizam, ao mesmo tempo em que evidencia as estratégias de resistência construídas por mulheres que enfrentam, diariamente, diferentes formas de violência e apagamento.
O espetáculo é dirigido por Tony Silva e tem dramaturgia assinada por Lenilda Santos e Tony Silva, que também estão em cena. A atuação das duas artistas, marcada por experiências e trajetórias significativas no teatro do Rio Grande do Norte, conduz o público por diferentes camadas do universo feminino negro no Brasil, provocando reflexões sobre identidade, pertencimento, racismo e as marcas deixadas pela exclusão.
Outro aspecto que merece destaque é a própria construção visual da montagem. As duas atrizes se revezam na composição dos figurinos e na organização do cenário, assumindo também funções que contribuem para a dinâmica da encenação. Essa escolha dialoga com a proposta de um espetáculo concebido para circular por espaços teatrais não convencionais, como calçadas de igrejas, auditórios, salas de aula, praças e ruas, entre outros.
Essa característica amplia as possibilidades de encontro entre a obra e o público e evidencia o teatro como uma linguagem capaz de ultrapassar os limites dos espaços tradicionalmente destinados à cena. Ao ocupar diferentes lugares, Aparecida reafirma o potencial do teatro como mecanismo de comunicação, reflexão e conscientização, aproximando a experiência artística do cotidiano das pessoas.
Nesse sentido, o espetáculo não se limita a contar histórias de mulheres negras: ele cria um espaço para que essas vozes sejam ouvidas e para que suas experiências possam ser compartilhadas com o público. A cena torna-se, assim, lugar de memória, denúncia e resistência, na medida em que possibilita a permanência e a transmissão de experiências que historicamente foram silenciadas ou marginalizadas.
Essa perspectiva aproxima-se da reflexão de Pierre Nora sobre os “lugares de memória”, entendidos como espaços nos quais a memória se cristaliza e encontra formas de preservação e transmissão. Como afirma o autor, “os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações” (NORA, 1993, p. 13).
Nesse sentido, a cena teatral pode ser compreendida como um lugar simbólico de preservação da memória, sobretudo quando coloca em evidência experiências que permaneceram à margem das narrativas históricas dominantes.
O espetáculo foi apresentado no auditório da FASSO, na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte
(UERN), na cidade de Mossoró, RN.
Elenco:
Lenilda Santos e;
Tony Silva
O CENÁRIO


Foto 2 - Cenário
O cenário é dividido em dois ambientes. O primeiro é composto por duas mesas desmontáveis, cobertas por uma toalha de mesa marrom, bordada com pequenas pedrarias. Sobre elas, encontram-se uma boneca preta de cabelos loiros, uma taça de cristal com água, um conjunto de chá, uma caixa de presente contendo um tecido rendado, alguns livros de escritoras negras: Vivendo a Diversidade, Caderno de Anotações, Igualdade Racial e Pequeno Manual Antirracista, além de um celular, uma luminária automática branca, um vidro de perfume chivas, e um turbante vermelho.
O cenário é dividido em dois ambientes. O primeiro é composto por duas mesas desmontáveis, cobertas por uma toalha de mesa marrom, bordada com pequenas pedrarias. Sobre elas, encontram-se uma boneca preta de cabelos loiros, uma taça de cristal com água, um conjunto de chá, uma caixa de presente contendo um tecido rendado, alguns livros de escritoras negras: Vivendo a Diversidade, Caderno de Anotações, Igualdade Racial e Pequeno Manual Antirracista, além de um celular, uma luminária automática branca, um vidro de perfume chivas, e um turbante vermelho.
O segundo ambiente é formado por um pedaço de papelão de aproximadamente 1,70 m de comprimento por 0,60 m de largura, uma bolsa de feira, uma capa vermelha, uma manta de tom vermelho-sangue, em tonalidade mais escura que a capa, um sapato e um capuz, também vermelhos.
À primeira vista, o primeiro ambiente do cenário pode nos levar a imaginar que a peça nos conduzirá a uma consulta esotérica, inserida no campo do imaginário sobrenatural, na qual uma cartomante ou vidente revelaria o futuro. Todavia, à medida que a cena se desenvolve, aquele espaço revela outras camadas de significado.
Mais do que um ambiente de consulta, ele se transforma em lugar de sabedorias ancestrais, de busca pelo conhecimento a partir das próprias raízes negras e de diálogo com pensadoras e pensadores negros brasileiros. Os objetos presentes em cena estabelecem uma relação de intimidade entre a personagem e suas referências, crenças, memórias e experiências.
Essa composição também evidencia uma maneira singular de transmitir conhecimento, sobretudo quando pensamos no letramento racial em suas diversas dimensões. Ele aparece tanto nas referências às tradições e aos saberes ancestrais, transmitidos de geração em geração, quanto na compreensão das linguagens dos corpos femininos e masculinos, das relações de pertencimento, identidade e liberdade.
Trata-se, portanto, de um saber que não se limita à palavra escrita ou aos espaços formais de aprendizagem. A encenação sugere uma compreensão ampliada do conhecimento, construída também pela oralidade, pela experiência, pela memória, pela ancestralidade e pelas relações estabelecidas com o próprio corpo e com a comunidade. Arrisco dizer que esse saber ultrapassa as fronteiras tradicionalmente estabelecidas pelo conhecimento acadêmico.
Por outro lado, o segundo ambiente nos apresenta dois mundos aparentemente distintos. Em um primeiro momento, encontramos a representação de uma pessoa em situação de rua: o corpo de uma mulher negra estendido sobre um papelão que funciona como colchão, acompanhado de uma bolsa com seus pertences, entre eles um lençol e uma marmita.
Em contraste com essa imagem de vulnerabilidade, surge, ao fundo, aquilo que pode ser associado à ideia de realeza: uma capa vermelha que 3 remete à vestimenta de uma rainha e que, em cena, adquire outra dimensão simbólica ao se projetar como a presença imponente de um orixá.
Essa transformação visual cria uma atmosfera de intensa espiritualidade e nos conduz à reflexão sobre a importância da religiosidade e da ancestralidade na experiência do povo negro. O vermelho, a postura corporal e a presença simbólica desse elemento conferem ao espaço uma força que parece estabelecer uma ponte entre o mundo material e o espiritual.
Dessa maneira, o cenário não funciona apenas como suporte para a ação dramática. Os objetos, as cores, os tecidos e a disposição dos elementos em cena participam da construção dos sentidos do espetáculo. Entre a vulnerabilidade social e a força ancestral, Aparecida estabelece um diálogo visual que coloca em tensão diferentes dimensões da experiência negra: a exclusão e o pertencimento, a violência e a resistência, o abandono e a proteção, a vida cotidiana e a dimensão espiritual.
O AUDIOVISUAL
É importante destacar que o cenário incorpora um terceiro elemento: o audiovisual. Um telão ao fundo recebe projeções de imagens de crianças e mulheres vivendo situações de extrema pobreza. Essas imagens dialogam diretamente com o texto e constroem uma dramaturgia visual que o complementa, conferindo-lhe maior densidade e força.
O recurso audiovisual amplia o campo de significação da encenação, estabelecendo uma relação entre aquilo que é narrado pelas personagens e as imagens que chegam ao espectador. Dessa maneira, a cena passa a operar não apenas pela palavra e pela presença dos corpos, mas também pela força das imagens, que reforçam situações de vulnerabilidade, desigualdade e exclusão social.
FIGURINO

Foto 3 - Figurino
O figurino da Aparecida intelectual negra é completamente branco, fazendo alusão às vestimentas utilizadas por mães de santo em terreiros de religiões de matriz africana, especialmente no Candomblé e na Umbanda. A composição é formada por uma camisa branca usada por baixo de um jaleco longo, também branco, calça branca, turbante branco e sapatos marrons.
Já o figurino da personagem Aparecida em situação de rua é composto por uma calça estampada nas cores amarelo e verde, sobreposta por um paletó roxo, chinelos vermelhos e um lenço da mesma cor, utilizado para amarrar os cabelos crespos.
Há ainda um terceiro figurino utilizado pela Aparecida em situação de rua que, de certo modo, se confunde com o próprio segundo ambiente cenográfico. O espaço passa a incorporar a personagem, estabelecendo uma relação entre corpo, figurino e cenário e reafirmando a harmonia entre esses elementos da encenação.
A escolha dos figurinos me provocou, inicialmente, sentimentos distintos: desconforto e regozijo. O desconforto surge justamente pela aproximação com um mundo real, apresentado por uma dramaturgia madura e direta, que não procura mascarar as mazelas enfrentadas por pessoas em situação de rua. Ao contrário, a encenação expõe a desigualdade social, a violência e as contradições presentes nas políticas públicas e nas estruturas sociais que atravessam essas vidas.
Por outro lado, senti regozijo diante da afirmação da presença do terreiro em cena. Há, nesse gesto, uma espécie de declaração de existência: estamos aqui. Uma presença que não parece pedir licença e que rompe barreiras historicamente construídas em torno das religiões de matriz africana.
Esses três figurinos nos lançam, portanto, em uma reflexão sobre mundos físicos e espirituais, capazes de provocar, simultaneamente, dor e fortalecimento. Eles nos fazem interromper o olhar automático e formular perguntas que ultrapassam a cena: e se fosse comigo? Quando a situação atinge outra pessoa, consigo manter a distância e acreditar que não chegará até mim ou aos meus? E se chegar?
Que tipo de homem ou mulher estou sendo a cada dia? Que ações realizo ou deixo de realizar, diante da fome, da miséria, das doenças e dos abusos? E, por outro lado, como reajo quando encontro uma pessoa iniciada em uma religião de matriz africana, utilizando seus patuás e outros elementos relacionados à sua fé?
Por que, tantas vezes, essas manifestações religiosas são demonizadas ou invisibilizadas? Por que algumas pessoas rejeitam publicamente essas religiões, mas recorrem a elas, de maneira reservada, quando enfrentam problemas relacionados ao amor, à saúde ou à vida financeira?
A encenação, nesse sentido, não entrega respostas prontas. Ela provoca o espectador a confrontar suas próprias contradições.
A ILUMINAÇÃO
A iluminação ambiente contribui para dar maior densidade à cena, expondo a realidade dura desses diferentes mundos sem necessariamente mascará-la, ornamentá-la ou transformá-la em fantasia. A opção por uma iluminação mais direta mantém a atenção concentrada nos corpos e nas situações apresentadas, reforçando a dimensão realista de determinados momentos da encenação.
É possível questionar, contudo, se uma exploração mais elaborada da iluminação poderia acrescentar novas camadas à dramaturgia visual. Não afirmo que a escolha realizada seja inadequada; pelo contrário, ela não impede que as duas atrizes desenvolvam suas atuações com força e presença.
Ainda assim, a utilização mais expressiva de luz e sombra poderia criar outras possibilidades para a cena, destacando silhuetas, figurinos, expressões corporais e intenções faciais. Uma dramaturgia da iluminação mais pulsante talvez acrescentasse novas atmosferas ao espetáculo e estabelecesse diálogos ainda mais complexos entre os corpos, os objetos, o audiovisual e o espaço.
Essa possibilidade ganha relevância justamente porque Aparecida trabalha com contrastes tão fortes: presença e invisibilidade, pobreza e realeza, corpo e espírito, violência e resistência. A iluminação poderia, portanto, tornar se mais um elemento capaz de materializar esses contrastes diante do espectador.
A iluminação, portanto, não se restringe à função de tornar visíveis os elementos da cena, podendo também participar da construção de sentidos e da própria dramaturgia visual. Como observa Cibele Forjaz Simões (2008), Cada encenador ou, em última instância, espetáculo, desenvolve uma forma própria de escrita da luz...” (SIMÕES, 2013, p. 330).
O ESPETÁCULO
Neste momento, gostaria de tecer alguns comentários sobre as cenas e as interpretações, especialmente sobre as personagens construídas pelas duas atrizes.
LENILDA SANTOS:

O figurino da Aparecida intelectual negra é completamente branco, fazendo alusão às vestimentas utilizadas por mães de santo em terreiros de religiões de matriz africana, especialmente no Candomblé e na Umbanda. A composição é formada por uma camisa branca usada por baixo de um jaleco longo, também branco, calça branca, turbante branco e sapatos marrons.
Já o figurino da personagem Aparecida em situação de rua é composto por uma calça estampada nas cores amarelo e verde, sobreposta por um paletó roxo, chinelos vermelhos e um lenço da mesma cor, utilizado para amarrar os cabelos crespos.
Há ainda um terceiro figurino utilizado pela Aparecida em situação de rua que, de certo modo, se confunde com o próprio segundo ambiente cenográfico. O espaço passa a incorporar a personagem, estabelecendo uma relação entre corpo, figurino e cenário e reafirmando a harmonia entre esses elementos da encenação.
A escolha dos figurinos me provocou, inicialmente, sentimentos distintos: desconforto e regozijo. O desconforto surge justamente pela aproximação com um mundo real, apresentado por uma dramaturgia madura e direta, que não procura mascarar as mazelas enfrentadas por pessoas em situação de rua. Ao contrário, a encenação expõe a desigualdade social, a violência e as contradições presentes nas políticas públicas e nas estruturas sociais que atravessam essas vidas.
Por outro lado, senti regozijo diante da afirmação da presença do terreiro em cena. Há, nesse gesto, uma espécie de declaração de existência: estamos aqui. Uma presença que não parece pedir licença e que rompe barreiras historicamente construídas em torno das religiões de matriz africana.
Esses três figurinos nos lançam, portanto, em uma reflexão sobre mundos físicos e espirituais, capazes de provocar, simultaneamente, dor e fortalecimento. Eles nos fazem interromper o olhar automático e formular perguntas que ultrapassam a cena: e se fosse comigo? Quando a situação atinge outra pessoa, consigo manter a distância e acreditar que não chegará até mim ou aos meus? E se chegar?
Que tipo de homem ou mulher estou sendo a cada dia? Que ações realizo ou deixo de realizar, diante da fome, da miséria, das doenças e dos abusos? E, por outro lado, como reajo quando encontro uma pessoa iniciada em uma religião de matriz africana, utilizando seus patuás e outros elementos relacionados à sua fé?
Por que, tantas vezes, essas manifestações religiosas são demonizadas ou invisibilizadas? Por que algumas pessoas rejeitam publicamente essas religiões, mas recorrem a elas, de maneira reservada, quando enfrentam problemas relacionados ao amor, à saúde ou à vida financeira?
A encenação, nesse sentido, não entrega respostas prontas. Ela provoca o espectador a confrontar suas próprias contradições.
A ILUMINAÇÃO
A iluminação ambiente contribui para dar maior densidade à cena, expondo a realidade dura desses diferentes mundos sem necessariamente mascará-la, ornamentá-la ou transformá-la em fantasia. A opção por uma iluminação mais direta mantém a atenção concentrada nos corpos e nas situações apresentadas, reforçando a dimensão realista de determinados momentos da encenação.
É possível questionar, contudo, se uma exploração mais elaborada da iluminação poderia acrescentar novas camadas à dramaturgia visual. Não afirmo que a escolha realizada seja inadequada; pelo contrário, ela não impede que as duas atrizes desenvolvam suas atuações com força e presença.
Ainda assim, a utilização mais expressiva de luz e sombra poderia criar outras possibilidades para a cena, destacando silhuetas, figurinos, expressões corporais e intenções faciais. Uma dramaturgia da iluminação mais pulsante talvez acrescentasse novas atmosferas ao espetáculo e estabelecesse diálogos ainda mais complexos entre os corpos, os objetos, o audiovisual e o espaço.
Essa possibilidade ganha relevância justamente porque Aparecida trabalha com contrastes tão fortes: presença e invisibilidade, pobreza e realeza, corpo e espírito, violência e resistência. A iluminação poderia, portanto, tornar se mais um elemento capaz de materializar esses contrastes diante do espectador.
A iluminação, portanto, não se restringe à função de tornar visíveis os elementos da cena, podendo também participar da construção de sentidos e da própria dramaturgia visual. Como observa Cibele Forjaz Simões (2008), Cada encenador ou, em última instância, espetáculo, desenvolve uma forma própria de escrita da luz...” (SIMÕES, 2013, p. 330).
O ESPETÁCULO
Neste momento, gostaria de tecer alguns comentários sobre as cenas e as interpretações, especialmente sobre as personagens construídas pelas duas atrizes.
LENILDA SANTOS:

Foto 4 - Aparecida (situação de rua)
A princípio, a personagem interpretada por Lenilda Santos apresenta-se como uma mulher em situação de rua, que desfia uma longa trajetória de vivências desde a infância. Por meio de sua narrativa, somos conduzidos a histórias de abandono familiar e de exploração de crianças negras e pobres oriundas do interior do Estado, levadas para as grandes cidades sob a promessa de serem acolhidas como membros da família, receberem educação e terem acesso a uma vida digna.
Entretanto, ao chegarem a essas casas, muitas dessas crianças eram submetidas a trabalhos contínuos de limpeza e servidão, tratadas como verdadeiras trabalhadoras em condições análogas à escravidão. Em alguns relatos, essas pessoas eram ainda entregues ou encaminhadas a amigos e parentes para realizar trabalhos braçais considerados subalternos. A violência também poderia assumir dimensões sexuais, com situações de assédio e abuso praticadas por membros das famílias que deveriam protegê-las. Em alguns casos, essas histórias eram atravessadas por gravidezes precoces e pela realização de abortos.
A personagem também aborda seus relacionamentos, incluindo dois casamentos com homens negros, nos quais a violência psicológica e física se faz presente. O espetáculo traz o relato de agressão sexual dentro do casamento, a opressão exercida pelo chefe da família, a exigência de que os melhores alimentos e as melhores condições fossem destinados a ele, além do controle sobre a mulher e da imposição de sua submissão.
Ao trazer essas experiências para a cena, a montagem expõe a invisibilidade das violências sofridas por mulheres negras, incluindo situações de feminicídio, fugas e abandono do lar como formas de sobrevivência. Aparecem também o afastamento das amizades, o sofrimento psíquico, a procura por um lugar onde possam se reconhecer e pertencer e, finalmente, a entrada no perturbador universo da rua: o infortúnio, o lixo, a lama, o esgoto, a revolta e o abandono de si.
É desse lugar que surge o grito de um ser humano que reivindica o direito de viver, trabalhar e ter assegurados direitos fundamentais como saúde, vestimenta, moradia e alimentação.
A personagem também conduz o público às suas raízes, às histórias que não aparecem nos livros utilizados nas escolas públicas e particulares do nosso país. São narrativas que nossos bisavós, avós e mães contaram e que continuam sendo transmitidas oralmente, muitas vezes porque não houve quem as registrasse por escrito.
Nesse ponto, a encenação provoca uma reflexão sobre o apagamento histórico e sobre as estruturas que, durante muito tempo, limitaram o acesso da população negra à educação e à produção de conhecimento. Durante essa narrativa, a personagem incorpora o espírito de sua ancestral, culminando na chegada de Oyá/Iansã, orixá associado aos ventos, às tempestades, aos raios, à força da natureza, à coragem, à transformação e à liberdade.
A passagem produz uma atmosfera de beleza e leveza por meio do canto e dos movimentos, ao mesmo tempo em que expressa uma dimensão espiritual potente, relacionada à ancestralidade e à afirmação das religiões de matriz africana.
É interessante observar ainda que a personagem Aparecida, interpretada por Lenilda Santos, desenvolve determinados momentos por meio de recursos semióticos que remetem ao ato de embalar uma criança. Utilizando um lençol, ela recria essa ação e, por meio de canções e cantigas, revela lembranças de uma infância atravessada por discursos que historicamente inferiorizaram crianças negras.
A cena nos coloca diante de uma realidade que ainda atravessa a educação infantil. Partimos do pressuposto de que nenhuma criança nasce racista; ela aprende comportamentos e valores em uma sociedade que, historicamente, reproduz estruturas racistas e eurocêntricas, inclusive por meio dos exemplos recebidos no ambiente familiar e social.
Na adolescência, essa mesma personagem encontra outras formas de rejeição e silenciamento: é tolhida em seus desejos de ser artista, de representar uma princesa ou uma rainha ou, simplesmente, de declamar um poema diante da sociedade em que vive.
Todas essas nuances aparecem em um espetáculo de aproximadamente cinquenta minutos, fazendo com que eu reconheça e reverencie o talento dessa atriz mossoroense, que transforma seu ofício em um verdadeiro levante de resistência em defesa das mulheres negras, dos homens negros, das populações periféricas e das crianças e adolescentes pobres, injustiçados e vulnerabilizados.
TONY SILVA:
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Foto 5 - Aparecida (intelectual)
A personagem Aparecida, interpretada por Tony Silva, apresenta-se com atitude, personalidade, intelectualidade, caráter e autoconfiança. Demonstra consciência de si e afirma-se como uma intelectual negra, marcada pelo hábito da leitura, pela pesquisa e pela produção de conhecimento.
A personagem Aparecida, interpretada por Tony Silva, apresenta-se com atitude, personalidade, intelectualidade, caráter e autoconfiança. Demonstra consciência de si e afirma-se como uma intelectual negra, marcada pelo hábito da leitura, pela pesquisa e pela produção de conhecimento.
Em seus diálogos, estabelece relações com escritoras como Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Djamila Ribeiro, apresentando suas escritas, reflexões e pesquisas. A personagem descortina, assim, um universo de produção intelectual negra que, segundo a própria perspectiva apresentada em cena, durante muito tempo encontrou barreiras para ocupar espaços de destaque nas universidades, bibliotecas, escolas e bienais do livro.
Quando a personagem fala sobre intelectualidade negra, coloca em discussão a presença ainda desigual de autores e autoras negras nos espaços de produção e circulação do conhecimento. A história do país, durante muito tempo, foi narrada a partir de perspectivas que privilegiaram determinados grupos sociais, fazendo com que outras experiências permanecessem à margem.
Ao longo dos tempos, determinadas narrativas foram apresentadas como se constituíssem uma verdade única e absoluta: histórias de conquistas, bravura e êxito de reis e rainhas; de generais e comandantes; de capitães e coronéis.
Hoje, podemos compreender que não existe apenas uma versão da história. Existem diferentes perspectivas, entre elas as histórias dos vencedores e dos vencidos. Muitas dessas narrativas não foram registradas nos livros, mas sobreviveram e foram transmitidas de geração em geração por meio da oralidade, dos contos, das manifestações populares, das músicas e das danças.
São histórias preservadas também pela religiosidade e pelas práticas culturais de diferentes povos. Narrativas que, ao longo do tempo, sofreram processos de apagamento e invisibilização e que, atualmente, vêm sendo recuperadas e colocadas em evidência.
São histórias de povos indígenas, africanos e afro-brasileiros. Histórias de mulheres e homens negros que carregam em seus corpos as marcas da violência, da discriminação, do preconceito e da desigualdade de oportunidades, marcas que continuam presentes na sociedade contemporânea.
Os efeitos da colonização e as estruturas do racismo também aparecem como questões centrais na leitura proposta pelo espetáculo. A partir dessa perspectiva, a montagem questiona mecanismos históricos de poder e dominação que contribuíram para o apagamento de conhecimentos, memórias e produções intelectuais negras.
É nesse contexto que podemos aproximar a discussão apresentada em cena da reflexão da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie sobre o que ela denomina de “O Perigo da História Única”:
“É impossível falar sobre a história única sem falar sobre poder [...] O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva. ” (ADICHIE, 2019, p. 22).
A citação dialoga diretamente com a proposta do espetáculo. Afinal, quando apenas determinadas narrativas ocupam os livros, os palcos, as universidades e os espaços de memória, outras histórias podem permanecer invisibilizadas.
É justamente nessa perspectiva que a personagem Aparecida reivindica nossas histórias, nossa potência como intelectuais e escritores, nossa presença em espaços profissionais que não sejam marcados pela subalternização, nossas crenças e, sobretudo, nossa liberdade.
De outra maneira, a sutileza com que a personagem Aparecida apresenta o orixá Oxalá, associado, em diferentes tradições, à criação, à sabedoria, à paciência, ao respeito, à fé e à espiritualidade, revela-se um dos momentos de grande força simbólica da encenação.
O encontro, em cena, entre Oxalá e Oyá produz uma atmosfera de paz, alegria e força. A presença dessas referências espirituais amplia o campo simbólico do espetáculo e aproxima a experiência teatral de uma dimensão ancestral, na qual espiritualidade, identidade e resistência se encontram.
Nesse cruzamento entre realidade e fantasia, personagem e atriz, texto e literatura negra, interpretação e referências aos orixás, Aparecida constrói uma cena que reivindica memória, conhecimento, pertencimento e liberdade. O espetáculo transforma a experiência individual das personagens em uma reflexão mais ampla sobre as histórias que foram silenciadas e sobre a necessidade de fazê-las novamente ocupar o espaço da cena.
Ao chegar ao final desta crítica, percebo que Aparecida não termina para mim quando as luzes da cena se apagam. O espetáculo continua reverberando porque toca em uma memória que não é apenas coletiva, mas também familiar e profundamente pessoal. Como homem negro, filho de uma mulher negra que conheceu, ainda criança, as marcas da exploração e da servidão, não consigo assistir a essa encenação ocupando apenas o lugar de espectador. Há, entre o que vejo no palco e aquilo que carrego na memória, uma espécie de encontro.
Essas histórias familiares me fazem compreender que determinadas experiências não pertencem somente ao passado. Elas permanecem inscritas na memória, nos corpos, nas relações esociais e nas oportunidades que foram, ou não foram, oferecidas às gerações seguintes. É justamente por isso que a experiência de assistir a Aparecida me provoca de maneira tão particular. Aquilo que a cena apresenta como dramaturgia encontra, em mim, ecos de uma história vivida dentro da minha própria família.
Essa memória também está presente em minha produção literária, especialmente no livro A Bermuda de Saco de Açúcar e o Vestido, construído a partir de memórias, oralidades e histórias de pessoas de Martins que, durante muito tempo, permaneceram à margem das narrativas oficiais. O vestido, presente no título da obra, ganha para mim uma dimensão ainda mais profunda quando reencontro, no espetáculo, a ideia de uma mulher negra cujo trabalho e cuja existência são reduzidos à lógica da servidão.
Por isso, Aparecida me atravessa também como pesquisador, escritor, artista e homem negro. O espetáculo me faz perceber que o teatro pode ser mais do que representação: pode ser arquivo, testemunho, denúncia, memória e possibilidade de reconstrução de uma história que tantas vezes foi contada por outros.
Ao observar aquelas duas mulheres em cena, reconheço não apenas personagens, mas vozes que reivindicam o direito de existir em sua complexidade. Reconheço também parte das histórias que chegaram até mim pela oralidade e que, posteriormente, encontrei na literatura, na pesquisa e na criação artística.
Talvez seja essa a maior potência de Aparecida: fazer com que o espectador deixe de olhar a história do outro como algo distante e perceba que determinadas violências, silenciamentos e desigualdades também atravessam nossas próprias famílias e nossas próprias memórias.
Aparecida, portanto, não me deixa apenas uma impressão sobre o espetáculo. Deixa-me uma pergunta que também atravessa minha trajetória artística e de pesquisador: quantas histórias ainda permanecem esperando alguém que lhes devolva a voz?
Referência bibliográfica:
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993. Tradução de Yara Aun Khoury.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SIMÕES, Cibele Forjaz. À luz da linguagem: a iluminação cênica – de instrumento da visibilidade à “scriptura do visível”. 2008. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
CRÍTICO DE TEATRO:

Foto 6 - Chico de Nabor
Francisco de Assis Ricardo Silva, conhecido artisticamente como Francisco de Nabor/ Chico de Nabor, é ator, diretor, escritor, poeta, pesquisador e produtor cultural. Graduado em Estética e Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, desenvolve trabalhos voltados à valorização da memória social, da cultura popular nordestina, das narrativas afro-brasileiras e da preservação do patrimônio cultural.
Do Blog:
Honrosamente, publico neste portal informativo, esta pérola literária de autoria deste diamante negro, com aguçada visão crítica sobre os fatos e a história. Chico de Nabor, é este ser humano iluminado. Parabéns, artista!
Chico Chapéu Filho.
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